Na minha visita à China, vi startups próximas do mundo fabril. No Brasil temos pouco disso. Lá é a regra.

Na minha visita à China, vi startups próximas do mundo fabril. No Brasil temos pouco disso. Lá é a regra.

Voltei do Apsara, em Hangzhou, com a impressão de que lá, a startups estão nascendo
dentro das fábricas.

Estive na China para o Apsara, a conferência anual da Alibaba Cloud. Vi tudo muito sobre
cloud, LLMs, performance, qualidade no resultado, startups de um homem só (que vale uma
newsletter). Mas também vi nos corredores, nos estandes startups que estavam resolvendo um
problema físico, de fábrica, de braço robótico, de linha de produção. Elas não estavam perto da
indústria por acaso. Estavam coladas nela de propósito.

Não captura seus dados humanos, mas os dados do robô que você treina

Um estande em particular me fez parar para fazer algumas perguntas. Era uma empresa que
não vende robô nem vende modelo de IA. Ela vende o que vem antes de tudo isso: o hardware
para capturar os dados que treinam o robô.

A placa, em mandarim, dizia algo como “conjunto completo de hardware para captura de dados
em todas as modalidades”. Na prática, são sensores e braços que registram movimento, força,
posição e imagem ao mesmo tempo, em sincronia. É a matéria-prima do robô: sem esse dado
bem capturado, nenhum modelo aprende a pegar uma peça sem esmagá-la.
Enquanto muita gente discute qual LLM é a mais esperta, existe lá uma camada inteira de
empresas ganhando dinheiro vendendo a picareta e a pá da corrida: o equipamento que gera o
dado do mundo físico.

A cena que melhor explica a mentalidade de lá foi quase banal. Uma pessoa colocava uma flor
dentro de um vaso. Simples. O detalhe é que ela não fazia isso com a própria mão: ela operava
dois braços robóticos, e eram outros braços robóticos que pegavam a flor e a posicionavam no
vaso, sendo treinados ao vivo com o braço humano.

Perguntei por que o trabalho todo de teleoperar os braços com outros braços robóticos. A
resposta foi para não capturar dados direto do humano e sim por tabela.
Em vez de pedir ao robô que imite o humano, eles ensinam o robô a partir do
movimento do próprio robô. O atalho é enorme.

Segundo a International Federation of Robotics, a China instalou 295 mil robôs industriais em
2024, alta de 7% e o maior volume já registrado. Isso representou 54% de toda a demanda

mundial, ou seja, mais do que todos os outros mercados do planeta somados. O parque
instalado do país já passa de 2 milhões de robôs em operação. Para efeito de comparação,
foi quase nove vezes o que os Estados Unidos instalaram no mesmo ano.

E não é só quantidade. A China abriga hoje mais ou menos 101 “fábricas-farol” reconhecidas
pelo Fórum Econômico Mundial, as mais avançadas do mundo em automação e IA, o maior
número de qualquer país, de um total de pouco mais de 220 no planeta.

O Wall Street Journal trouxe em novembro casos concretos do que isso faz no dia a dia. A
Midea, gigante de eletrodomésticos, montou um “cérebro de fábrica” com agentes de IA que
derrubou de 15 minutos para 30 segundos o tempo de certas decisões de linha e elevou a
receita por funcionário. A Bosideng, de vestuário, usou IA para cortar o ciclo de
desenvolvimento de um produto de cerca de 100 dias para menos de 30. São empresas
tradicionais, não startups de tecnologia, colhendo o resultado de estar perto de quem constrói
essas ferramentas.

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Vale a pena você usar uma IA para pesquisar sobre o que a China está fazendo no assunto X.
Você vai ficar impressionado com as soluções e poderá ter ideias para seu próprio negócio.

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Fontes

Wall Street Journal, Robots and AI Are Already Remaking the Chinese Economy (24/11/2025): wsj.com
International Federation of Robotics, instalações de robôs na China em 2024: ifr.org
Fórum Econômico Mundial, Global Lighthouse Network (fábricas-farol): weforum.org
Confederação Nacional da Indústria, adoção de tecnologias digitais na indústria:
portaldaindustria.com.br

E você, acha que o Brasil ainda dá tempo de aproximar as nossas startups do nosso chão
de fábrica? Leio todas as respostas.

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Marcelo Marques
Marcelo Marques 39 posts

Marcelo Marques é cofundador da Rankdone, Jedai e 4Linux, e atualmente atua como CEO da Rankdone. Concluiu o curso "Artificial Intelligence: Implications for Business Strategy" pela MIT Sloan School of Management, consolidando sua expertise em estratégias empresariais aplicadas à inteligência artificial. Empreendedor com experiência em tecnologia e inovação, atuou na criação da Startup Jedai, voltada para soluções avançadas de IA e educação. Atua também como AI Strategic Business Advisor na Intellinode.ai, em Delaware, EUA. Administrador pela FASP, especializado em Marketing pela Trevisan Escola de Negócios e pós-graduado em Gestão Empresarial pela FGV.

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